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A Guerra que Salvou a Minha Vida não é sobre guerra

Em estórias que se passam durante guerras, já espero que seja algo triste, dramático e impactante. É possível perceber isso com muita facilidade em A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak. Dona Morte e Liesel brincam de esconde-esconde numa Alemanha desfigurada pelas mãos de Hitler. Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden, usa o panomara da Segunda Guerra Mundial pra determinar algumas passagens marcantes da estória.

>> Drama familiar
>> Ada Aventureira
>> Silêncio também comunica
>> Sem tempo pra romance

Quando chegamos em O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, o elemento da inocência já é determinante. Fala tão alto que cega o leitor aos detalhes do pano de fundo, que é, mais uma vez, a Segunda Guerra Mundial. Meu desconforto em ler Pijama Listrado foi tanto que precisei insistir, desistir, voltar a ler e pular páginas pra tentar entender se a inocência, ali, tinha algum propósito. Ainda acho que não tinha.

Enfim, os primeiros indícios da parceria com a editora #DarkSideBooks 💜 Lá em março, há mais de 1 mês, a @darksidebooks me enviou esse kit de “A Guerra que Salvou a Minha Vida” (The War That Saved My life), da escritora americana Kimberly Brubaker Bradley, publicado com o selo #DarkLove da caveira. Nesse meio tempo, a crise nos Correios foi ficando cada vez pior (valeu, Temer!) e eu, aqui, só imaginando quando que iria pôr as mãos nessa belezura de livro. Eis que acabou dando certo. Fui hoje lá na agência buscar, porque nada tá sendo entregue no meu endereço. Fica atento, galera! Se esses pacotes passam muito tempo em um dos centros de distribuição, os Correios simplesmente devolvem ao remetente. . Daqui a um tempinho, vários comentários desse livro vão aparecer por aqui. A não ser que eu decida fazer um bordado bem caveirístico com esse kit de costura, né? Vacilou, dona Darkside. Obrigadinho 💀💜 #SemMedoDeLer

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Eis que, anos depois da febre de A Menina que Roubava Livros, ressurge das cinzas o tema que nunca sai de moda: Segunda Guerra. The War That Saved My Life foi originalmente publicado em 2015 pela escritora americana Kimberly Brubaker Bradley. O livro foi premiado e esteve na lista dos mais vendidos do New York Times. A DarkSide Books trouxe esse livro para o Brasil no início de 2017, com o título A Guerra que Salvou a Minha Vida e sob o selo DarkLove. Durante 200 páginas das 233, eu só achei uma coisa: Ela não merece esse prêmio.

Drama familiar

Ada é mais uma criança protagonista numa estória de guerra. Digo “mais uma” porque é um estereótipo de personagem que cansa, assim como os títulos A menina que… O menino de… Não é bonito nem tem nada de original. Por isso que me chateia ver os elogios exagerados a esse livro lá pelos canais literários no Youtube. Direi meus motivos aos poucos, ok?

. Ela é uma criança num país em guerra e ela tem o pé torto. Tendo nascido assim, Ada sofre com a mãe que não aceita a condição física da filha. A mãe, que não tem nome e é chamada simplesmente de “Mãe”, castiga Ada sem motivos, mas tudo com base na vergonha de expor a filha deficiente. Se é Jamie, o irmãozinho de Ada, quem faz alguma danação, é Ada quem paga o pato e acaba sendo castigada.

Talvez a Mãe sorrisse para mim. Olhe só como você é esperta!, talvez ela dissesse.” – p. 14

Jamie cresceu com Ada sendo desumanizada pela mãe e, mesmo novinho, já internalizou tudo o que a Mãe ordena para a filha. Então, Jamie está sempre repetindo: “Ada não pode falar com ninguém”, “Ada não pode sair”, “Ada não pode ir à escola”, fora os xingamentos tipo “Ada tem o pé feio” e “Ada é estúpida, Ada é burra”. Coisas assim não brotam do nada na mente de uma criança, né?

Ada Aventureira

Até Ada já internalizou tudo isso que a Mãe diz. Mas ela não é acomodada e se desafia constantemente, como se desafiou a andar de pé. Ela rastejava pela casa até ouvir a notícia de que as crianças de Londres seriam evacuadas para outras cidades por causa do início da guerra. Nesse momento, ela tenta se acostumar a andar em pé, mesmo sentindo muita dor ao apoiar o pé torto no chão.

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Mas ela não ficou só nisso. A Mãe proibiu Ada de ir com Jamie no trem dos evacuados e, mesmo assim, a menina fugiu com o irmão e foram abrigados, com relutância, por Susan. Com um orgulho e uma arrogância que não tem tamanho, Ada se recusa a aprender com Susan a escrever, a ler e a costurar, e tenta fazer tudo sozinha. Mesmo sem conseguir…

Sua coragem, sua disposição e sua determinação nos levarão à vitória.” – p. 68

Dá pra notar com bastante força o crescimento da protagonista. Ela tem seus percalços, seus desafios, teima em não querer nada de novo e quebra a cara, como todo bom personagem que esconde a simpatia por trás de uma casca de arrogância. Claro, Ada é criança e age no reflexo das regras sociais que via em casa. Seu comportamento é todo condicionado, mas ela não fica na inércia e vai absorvendo outros comportamentos e outras características.

Silêncio também comunica

Essa é uma máxima que todo estudante de comunicação já ouviu: “O silêncio também comunica”. E chegou hora de falar da Susan, a tal mulher que abrigou Ada e Jamie. Ela vivia sozinha num casarão enorme, bem mobiliado, mas não afirma que seja tudo seu. Becky with the good hair era a verdadeira dona daquilo tudo: a casa, o terreno, o pônei no estábulo e os cavalos de caça que haviam sido vendidos. Becky era a grande amiga de Susan. Se conheceram na faculdade e passaram a morar juntas. Mas Becky morreu, e Susan ficou sozinha.

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Quando Ada e Jamie chegam para morar com Susan, a mulher está completamente devastada e deprimida. Em algumas manhãs, não sai da cama. Pela noite, chora no quarto. Conhecemos pouquíssimo de Susan, apesar de ela estar tão presente na estória quanto Jamie. Mas alguns detalhes soltos de sua vida vão se agrupando.

O pai de Susan não se agradou quando sua filha foi morar com Becky. Susan não queria montar uma família, se negou a seguir o padrão de vida da mulher inglesa. E, em alguns pontos da narrativa, se queixa do distanciamento com o resto da comunidade. Para ela, sua família era Becky, e somente ela. E fica por isso, nada se conclui… mas quantidade de informações que simplesmente paira no ar é impressionante e a dúvida permanece: Afinal, Susan e Becky eram amigas ou um casal?

Sem tempo pra romance

O livro é exatamente como essa crítica: 99% da obra é (sendo objetivo) ruim, assim como 99% desse texto é negativo. Mas aquele 1% é dizendo que ele traz temas importantes e carentes de debate, trazidos à tona à sua própria maneira e ritmo.

Mesmo com a sensação de que a Mãe me odiava, ela tinha que me amar, não tinha? Tinha que me amar, pois era minha mãe, e a Susan era só uma pessoa obrigada a cuidar do Jamie e de mim por causa da guerra.” – p. 136

O que há de positivo na criação de Kimberly Brubaker Bradley, é a exposição do falso romantismo nas relações familiares. Numa família, ninguém é obrigado a se amar. (A partir daqui, você pode encontrar SPOILERS, mas é o que tem de melhor por aqui, garanto!) A Mãe não queria ter filhos. Fica subentendido que ela foi coagida e forçada a ter filhos com o marido. Isso não era pra ser acordo de ambas as partes? A estória se passa em 1930-40, mas é surreal considerar que isso aconteça ainda hoje.

Se os pais tiveram filhos, eles têm, sim, de prover e cuidar. A vergonha da Mãe sobre Ada era tão grande que ela ficou cega para as opções que tinha: entregar à adoção, por exemplo. Se não alimenta, não educa, não oferece nada de bom, por que ela vai continuar cuidando de uma filha que não quer? Seria a lembrança do amor que tinha pelo homem falecido, pai da menina? Ou seria por necessidade em manter uma cria que pudesse cuidar da casa e do outro filho durante sua ausência? São várias interpretações e possibilidades, e nada se pode afirmar com certeza porque a autora não deu posicionamento nenhum sobre isso.

Guerra de quem

Concluindo: A Guerra que Salvou a Minha Vida quebra o paradigma de que família é essencialmente aquela em que nascemos. Ada, mais que Jamie, encontrou em Susan um amor parental que nunca sentiu. O amor assusta a menina e a deixa envergonhada e sem saber como agir diante de gestos de carinho. E não é como aquela pessoa que se esquiva de um abraço. Ada tem medo: medo desse gesto ser uma maneira de maltratá-la, e medo de que aquele aconchego e segurança acabe no instante seguinte.

Ao fim da leitura, entendemos que a Segunda Guerra praticamente nem existiu nesse mundo de Ada. Não importa se Londres foi bombardeada. Importa menos ainda informar ao leitor se a Mãe está viva ou se aprendeu algo com toda essa situação. A verdade é que não precisava do panorama de guerra pra Ada existir. Os elos de tempo e lugar são fracos e a estória poderia se encaixar em qualquer espaço, em qualquer época. E eu não considero isso positivo, de forma alguma, é experiência negada ao leitor.

Foi decepcionante, sem dúvida. Geralmente, não considero que livros poderiam ser maiores, mas esse claramente precisava de mais informações. Ada é protagonista, sim, mas em detrimento dos outros personagens. No início, Ada revela que está falando de um futuro distante, e o final não fecha esse ciclo. A ignorância de Ada não é culpa dela, mas priva o leitor de entender o que se passa ao redor. É o típico caso de quando o leitor está preso na mente do narrador. Vou nem começar a mencionar a conclusão, que ali parece outra pessoa falando no lugar de Ada…

Por isso que eu reafirmo: ela não merece esse prêmio.

Mas não dá pra negar. A Guerra… quebra a imagem da mãe provedora e da criança deficiente coitadinha que não sabe se virar. Não! Ada é aleijada sim, e é independente, forte, se importa com os outros e sua arrogância é vontade em ser autossuficiente, em não ser problema de ninguém. O que não foi suficiente foi essa experiência leitora que não teve jeito: 2 oclinhos.

A Guerra que Salvou a Minha Vida
Título original: The War That Saved My Life
Edição de 2017 da DarkSide Books
ISBN: 9788594540263
240 páginas
Skoob | Goodreads
Onde encontrar: Amazon BR

***

O livro foi cedido pela editora DarkSide Books como brinde pelo início da parceria em março deste ano. A edição, como pode ser visto nas fotos, é um primor! Uma pena que a leitura não foi tão satisfatória quanto segurar e admirar esse livro na estante… Amigos: podem pedir emprestado à vontade!

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