In Literatura

A fantástica inspiração de Rainbow Rowell

Não sei vocês, mas eu fico bem confortável quando percebo referências de um autor na obra de outro autor que estou começando a conhecer. Confesso: tinha um pouco de preconceito com Rainbow Rowell, porque eu sempre fico de rabo de olho quando chega um autor novo no mercado editorial e essa pessoa faz um sucesso desgraçado. Mas, depois de saber que Carry On surgiu de uma fanfic de Harry Potter dentro de outro livro da Rainbow, isso me chamou muita atenção e meu inconsciente ficou gritando: VAI ATRÁS DE LER ESSA CARALHA AGORA.

Antes de tudo, vale lembrar que Rainbow Rowell montou duas playlists para os dois personagens-destaque na trama de Carry On. A primeira é para o Simon Snow:

E a segunda (e a melhor), para Basilton Pitch:

Enfim, eu gosto de perceber quando uma narrativa pega elementos de outra história pra compor um novo universo independente. Foi partindo de J. K. Rowling que, afinal, cheguei a ler As Crônicas de Nárnia, do C. S. Lewis, e me interessei pelo mundo de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e todos esses me levaram a George R. R. Martin, em As Crônicas de Gelo e Fogo. Tudo forma um círculo de indicações que fica fácil de se perder no meio de tanta fantasia.

Contudo, também tem gente que se incomoda e já aponta o dedo pra falar que é plágio, mesmo quando já se sabe perfeitamente que a literatura de determinado autor é cânone naquele gênero. Já vi haters e até fãs criticando J. K. por ela ter pego elementos de outros autores e aplicado na própria estória.

Mas, chega aqui, qual o motivo de pegar tanto no pé dela? Porque, sinceramente, eu não vejo ninguém tacando paulada em Tolkien, Neil Gaiman, Rick Riordan, George R. R. Martin, Christopher Paolini, sendo que todos beberam de fontes alheias – caçando detalhes esquecidos de mitologias antigas, principalmente nórdica e celta, se apropriando de elementos culturais externos, pegando isso e aquilo de outros autores.

Tudo que a gente vive e tudo que a gente leu e consumiu na vida, vai transparecer e retornar ao mundo como referência – e tanto faz que seja proposital ou não. Mas, pra mim, é complicado criticar originalidade quando praticamente todas as histórias contemporâneas com heróis partem dos 12 trabalhos de Hércules e da Jornada do Herói. Se você não tá interado do assunto, tem esse videozinho que me ajudou a entender um pouco disso. O vídeo possui legendas em português, basta ativá-las no player:

Escritoras de fantasia

Eu poderia até ser radical e dizer que J.K. Rowling não deveria levar nenhum mérito por originalidade. Mas, se ser original é criar o zero do alicerce de uma nova mitologia, nenhum autor sobrevive. No fim da década de 1990, Joanne se via diante de inúmeros homens dominando o mercado editorial da literatura fantástica. Ainda mais, numa época em que Senhor dos Anéis aflorava novamente, Joanne teve o clique, a famigerada ideia dourada.

Do que a gente pode perceber pelo trajeto editorial de Joanne, a façanha dela não foi só mostrar pro mundo que ela poderia fazer um trabalho consistente. Ela entregou não só uma saga de 7 livros best-sellers no mundo todo, mas também se tornou cânone em uma fase extraordinária da literatura fantástica contemporânea. Afinal, depois dela, vieram Stephenie Meyer com a saga Crepúsculo e Cassandra Clare com Os Instrumentos Mortais.

A fantasia, enfim, ganhou mais nomes femininos, e outras conseguiram retornar ao mercado editorial de forma ativa, através do relançamento de títulos de Marion Zimmer Bradley, na obscuridade d’As Brumas de Avalon e Anne Rice, nas suas criaturas funestas das Crônicas Vampirescas.

Não vou ser louco de dizer que foi tudo graças à Rowling, mas eu seria muito negligente em apontar que ela não teve sua contribuição nesse processo. Se não fosse a persistência de cada uma dessas escritoras, não fosse a vontade e o amor pela escrita, de viver da imaginação, o que seria do mundo fantástico? Só um bando de machos viciados em RPG escrevendo sagas mirabolantes de protagonistas homens no padrão branco heteronormativo e personagens femininas deterioradas e sem profundidade psicológica.

E foi sendo perfeitamente referenciada que Rainbow Rowell me encantou desde a primeira frase lida.

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Muito Rainbow sim!

Eu sou cauteloso com novos autores, principalmente autores que escrevem pra um público jovem – do infantil ao jovem-adulto. Tenho lá minhas razões pra isso, do tipo sentir que perdi tempo e dinheiro em determinados livros. E livro é caro e a gente precisa de vida social, então, sim, vou ser cauteloso sempre.

Com Rainbow Rowell não foi mesmo diferente. Depois de ouvir falar de Eleanor & Park, Fangirl e Ligações, eu fiquei com aquela cara de quem chupou limão, pensando “Hum, isso num é pra mim não!” Mas isso durou só até eu, enfim, ver alguém do booktube falando de Carry On: um romance LGBT com magia na contemporaneidade convivendo com tecnologia e dramas adolescentes. Basicamente, o sonho de qualquer fã gay de Harry Potter em poder ver alguma representatividade REAL na saga.

Passei alguns meses em breve desespero interno corroendo minhas tripas, perdendo várias meias horas do dia em sites nacionais e internacionais acompanhando o preço do livro em inglês. Isso porque a edição em português – Carry On: Ascenção e queda de Simon Snow – só chegou no Brasil pela editora Novo Século em junho de 2016, e ele já vinha correndo pelo mundo desde outubro de 2015. Acabei lendo em inglês e foi uma ótima experiência junto do audiobook, nada muito complicado de entender.

Uma longa sinopse esquizofrênica

Simon Snow não é parente de Jon Snow, mas também é um órfão. Ele foi abandonado em um orfanato de pessoas não-mágicas em Londres e, no fim da infância, descobriu ser bruxo. Mas não um bruxo qualquer: ele é, simplesmente, o bruxo mais poderoso de todos os tempos, previsto em várias profecias antigas.

Recrutado por “The Mage” (ou o grande mágico), o líder da comunidade bruxa e diretor da escola de magia de Watford, Simon nos é apresentado quase ao fim da sua passagem pela escola. Ele não consegue controlar sua própria magia e, muitas vezes, é 8 ou 80: ou ele é incapaz de soltar simples fagulhas da varinha ou explode tudo ao redor de tanta força. Pra ele, é um grande tormento conviver com tanta magia dentro de si, principalmente tendo inimigos como Basilton “Baz” Pitch.

Simon e Baz são colegas de quarto desde o início da escola e estão sempre atormentando as vidas um do outro. Constantemente, entretanto, é Baz quem assume as vezes de autor do bullying, usando de toda a sua postura arrogante pra se sobressair diante de Simon.

Agatha Wellbelove é a namorada de Simon, mas Agatha não se sente satisfeita com o que Simon tem a oferecer. Diante desse impasse, ela imagina constantemente como seria namorar outra pessoa – e quem é a principal vítima desse pensamento? Baz, claro. Mas tem alguém sempre de olho em Agatha e no relacionamento dela com Simon: é Penelope Bunce, a melhor amiga de Simon, extremamente esperta, ágil, forte na magia, talentosa e inteligente.

Diante de tudo isso, o mundo mágico ainda é ameaçado por uma criatura que surgiu quando Simon deu os seus primeiros passos na feitiçaria. O Insidious Humdrum (ou… “Monotonia Traiçoeira”, mas traduzido como Insípido na edição traduzida), um ser que cria vários espaços vazios em magia pela Inglaterra, onde se torna impossível para qualquer um usar até o menor nível de bruxaria naquele lugar. Pra piorar, a criatura ainda tem a fisionomia de Simon, o que desperta algumas suspeitas.

When the Humdrum fist showed up, almost twenty years ago, holes began appearing in the magical atmosphere. It seems like he (it?) can suck the magic out of a place, probably to use against us.

(Tradução: Quando o Insípido apareceu pela primeira vez, quase 20 anos atrás, buracos começaram a aparecer na atmosfera mágica. Parece que ele (ou isso?) pode sugar a magia de um lugar, provavelmente pra usar contra nós.)

Todos os personagens tem uma determinada importância nesse conto fantástico. A narração acontece em primeira pessoa, a maior parte sendo no ponto de vista de Simon, mas também entramos na mente de Baz, Penelope, Agatha e até do Mage. É dessa forma que Rainbow aproxima cada um deles do leitor, e percebemos a provação que todos tem de passar nessa jornada. No fim, acaba não sendo a “ascenção e queda” só de Simon Snow, mas de todos os personagens, cativantes à sua própria maneira.

 

Atirei o pau no gato

Carry On surgiu de uma fanfic escrita por uma personagem de Rainbow Rowell no livro Fangirl, onde se pode perceber uma claras referências ao Harry Potter de J. K. Rowling. Mas Rainbow ultrapassou o patamar das referências e da criação básica e alcançou novas dimensões ampliando o mundo de Simon Snow.

Mapa de Watford.

Algumas diferenças são claras. A magia ensinada em Watford é ativada através de ditos e expressões populares, provérbios e até cantigas de roda e músicas populares. Em um tal momento, um dragão invade os terrenos de Watford, e Simon, Baz e Penelope vão combatê-lo. Eis que Baz começa a ditar uma antiga canção com o objetivo de afastar o dragão da escola:

Ladybird, ladybird, fly away home, your house is on fire and your children are gone.

(Tradução: Joaninha, joaninha, voa de volta pra casa, tua casa está em chamas e suas crianças fugiram.)

Em outro momento (não direi detalhes por motivos de spoiler), um dos personagens fala:

Twinkle, twinkle little star!

(Tradução: Brilha, brilha estrelinha!)

A forma que o mundo da feitiçaria é governado também é bem diferente do que é descrito por Rowling. Não existem grandes organizações. Pra começar, a magia é estritamente restrita a famílias mágicas, e cada família conserva o seu poder. Inclusive, se duas pessoas tem vários filhos, essa magia se divide entre todos os filhos – por isso que filhos únicos têm mais chances de serem bruxos poderosos.

As famílias mais antigas e poderosas são as que governam o mundo mágico numa espécie de grupo exclusivo. Quase como um conclave, os integrantes desse grupo decidem sobre diversas questões críticas envolvendo manutenção da magia e combate às ameaças a esse mundo. Com toda a questão do Humdrum (Insípido), não há unanimidade nas decisões, o que geram vários conflitos ente as famílias e uma suposta ameaça de guerra.

Representatividade que importa

O romance não é o principal artifício dessa trama. Rainbow soube dosar perfeitamente cada detalhe e, dessa forma, a leitura fica extremamente fluida, suave e diversificada. Temos, aqui, a descoberta de um jovem adolescente para as possibilidades de relacionamento, e isso diz muito sobre o que a autora que passar ao público.

Podemos ter alguns spoilers aqui, ok? Teje dito.

Simon inicia sua jornada como heterossexual. No meio do caminho, desperta interesse por um garoto. Em vários momentos, Simon não consegue se definir e se enquadrar em algum aspecto da sigla LGBT, enquanto outro personagem se define abertamente como homossexual.

Existe, sim, um relacionamento homossexual. O que torna interessante é a falta de romantização envolvendo os dois. Porque realmente não precisa dizer o tempo todo aos ventos que ama e que não vive sem. A paixão ali é bem forte e é palpável a todo momento, assim como poderia ser em um relacionamento heterossexual.

E, por mais que haja a definição de um relacionamento homossexual envolvendo dois homens, não necessariamente classifica Simon como gay. Ele não se entrega aos devidos rótulos, mas podemos sentir com muita clareza que Simon se sente como alguém bissexual – atraído romanticamente e sexualmente, de forma igual, pelos gêneros masculino e feminino.

A maneira como tudo se desenvolve é extremamente crível e sensível. Não existem grandes saídas de armário porque toda a construção leva à sua devida conclusão. E, só de perceber essa naturalidade toda, me fez sentir do quanto ainda precisamos de mais escritores envolvendo contos representativos para o seu público. J. K., infelizmente, nunca soube fazer isso bem, tendo que revelar os personagens homossexuais depois que a série havia sido concluída.

Faz bem deixar tudo claro e em pratos limpos. Não tenho nem motivos pra desviar da nota máxima pra Carry On: 5 oclinhos e todos mais possíveis.

(Esse é bem o terceiro post que faço comentando algo de Harry Potter. Se você ainda tem dúvida de que eu sou bem fanbitch da J. K. Rowling, pode encerrar as dúvidas: sou mesmo.)

Título original: Carry On – The rise and fall of Simon Snow
Edição hardcover de 2015 da St. Martin’s Press
ISBN: 9781250049551
552 páginas
Skoob / Goodreads
Onde comprar: Amazon BR / Saraiva / Book Depository
Carry On – A ascenção e queda de Simon Snow
Edição de 2016 da Novo Século
480 páginas
Skoob
Onde comprar: Amazon BR / Saraiva

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Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.

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