In Música

5 instrumentistas femininas pra nunca esquecer

Por esses dias, vinha assistindo Jane The Virgin e levei um susto quando, do nada, em um dos episódios da segunda temporada, apareceu Charo! A primeira vez que a vi foi em RuPaul’s Drag Race, onde ela faz algumas aparições especiais de vez em quando, mas sempre de uma forma extremamente caricaturada e humorística.

Em RuPaul’s, a gente é bombardeado com tantas informações, referências e detalhes de todas as drags, da edição e da produção do programa que fica bem complicado absorver 100% de cada episódio. E foi assim que Charo passou quase despercebida. Mas, quando a vi em Jane The Virgin, ela tinha algo de diferente: em uma das cenas, Charo toca violão de forma majestosa e é impossível ignorar sua habilidade. Foi assim que acabei indo procurar mais da vida artística dela.

Charo

María Del Rosario Mercedes Laura Jennifer Pilar Martínez Molina Baeza completou 66 anos no dia 13 de março e é cantora, bailarina, atriz, comediante e instrumentista. Os sucessos de Charo cambiam entre a dance music e a música flamenca. E é nessa raiz espanhola que eu fico todo arrepiado.

Nas suas aparições na TV, Charo sempre está bem caricaturada e estereotipada: é a personagem que não fala inglês bem, numa mistura extrema com espanhol que beira o impossível de compreender. Estereótipos à parte, seu talento me parece bem subutilizado nos programas em que fez participação especial. Inclusive em Jane The Virgin. Extremamente animada, Charo é dona de todas as ferramentas pra um entretenimento completo.

Depois de assistir a uma infinidade de vídeos de Charo no YouTube, fui lembrando de outras mulheres instrumentistas que humilham, se garantem, passam o rodo e sapateiam na cara de qualquer um. E comecei com Ana Carolina.

Ana Carolina

Lembro de vê-la tocando uma daquelas violas caipiras com 12 cordas e fiquei mega impressionado. Na época em que a vi nesse vídeo (acredito que tenha sido em extras de algum DVD), eu vinha tentando tocar violão, sem nenhum sucesso. O talento dela me inspirou um pouquinho, mas minha coordenação motora me impediu de ir além de 4 acordes consecutivos. Violão, viola caipira, guitarra… Ana Carolina é sensacional com os instrumentos, e ainda ataca no pandeiro, e faz um pagode e um samba muito doido que a vontade que dá é de sair requebrando pela casa toda.

Viola vai, viola vem, lembrei de uma reportagem que tinha visto há algum tempo, bem por acaso. Passaram o vídeo em alguma aula pra ilustrar como exemplo de alguma técnica jornalística. Mas enfim, tinha essa mulher que tocava pífano no sertão nordestino. O nome dela: Zabé da Loca.

Zabé da Loca

Isabel Marques da Silva tem 93 anos e nasceu em Pernambuco, mas passou boa parte da vida em Paraíba, onde vivia nas proximidades do município de Monteiro. Nasceu em 1924 e, durante 25 anos, morou em uma gruta (ou loca) onda armou algumas paredes de taipa e chamou aquele cantinho de lar. Zabé toca pífano e tem influência dos grandes compositores e cantores do sertão nordestino.

Homenageada na música de Chico César que leva seu nome, Zabé montou um projeto para ensinar crianças e jovens a tocar instrumentos tradicionais, além de fazer shows e apresentações em festivais relembrando seus álbuns Canto do Semi-Árido, gravado em 2003, e Bom Todo, de 2008.

Em 2008, Zabé recebeu o reconhecimento do Ministério da Cultura ao ser condecorada com a Ordem ao Mérito Cultural. Ela teve ainda um documentário produzido em 2011 sobre sua vida e contribuição cultural: é O Mundo Encantado de Zabé da Loca. Mulher de ouro!

Depois de cascaviar no YouTube atrás dos vídeos de Zabé, encontrei mais uma mulher brasileira e nordestina tocando sua música pro mundo: Dona Edith do Prato.

Dona Edith do Prato

Edith Oliveira Nogueira nasceu em 1916 na cidade de Santo Amaro da Purificação. Foi cantora e percussionista e tinha um jeito bem curioso de fazer sons e melodias: ela usava pratos e facas como instrumentos. Raspando um objeto no outro, ela produzia sons harmônicos e um ritmo característico do samba de roda.

Dona Edith trabalhou com Caetano Veloso e Maria Bethânia, e ainda serviu de inspiração a artistas como Gilberto Gil, Mariene de Castro e Roque Ferreira. Dona Edith faleceu no ano de 2009 em decorrência de um AVC. Me diz se o talento rítmico dessa mulher não dá vontade de botar as mãos na cintura e ir sambando de ladinho?!

E eu comecei falando de RuPaul’s Drag Race, né? Na oitava temporada do programa, uma das drags participantes falava do sonho de performar, como drag, um espetáculo comandando uma orquestra. Chegou a vez de falar da Thorgy Thor.

Thorgy Thor

Tá bem, Thorgy Thor é um homem vestido de mulher. Mas, convenhamos, quebrar padrões faz parte e é interessante e relevante que a gente abrace essa quebra como algo positivo. E, como Thorgy toca diversos instrumentos enquanto está em drag, vale a citação por aqui.

Thorgy é uma daquelas participantes do programa que a gente sabe que é muito boa, mas que sempre tropeça no caminho porque tenta demais atingir um nível de perfeição impecável. Quando, enfim, ela comenta que toca instrumentos clássicos e leva essa performance para o contexto drag queen em seus shows, representa um dos momentos mais simbólicos da passagem dela pelo programa. No vídeo curtinho a seguir, vemos Thorgy tocando violino numa participação especial na série Mozart in the Jungle.

É falando do seu sonho que Thorgy se entrega e conseguimos, enfim, enxergar vulnerabilidade. Ela querer montar um espetáculo de orquestra e performá-lo em drag não é só quebrar um padrão de gênero, mas também representa a tentativa de tirar um estigma de que música clássica é só pra gente idosa e elitista. Cada um sente a emoção que lhe convém quando ouve e presencia esse tipo de música, independente de gênero, tez ou visão de mundo.

E eu poderia continuar falando aqui por anos e anos de Alanis Morissette tocando gaita, Amy Winehouse tocando guitarra, Fernanda Takai tocando teremin, Meg White tocando bateria, Nina Simone no piano, Joan Jett na guitarra e de mais tantas outras mulheres que se entregam à música dentro de cada uma delas.

A gente só não pode esquecer que tem, sim, muita feminilidade sendo criada no meio artístico da música. E vai pra tudo que é lado: pop, rock, country, sertanejo universitário, samba, MPB, ritmos latinos, clássico… É coisa demais, sério! Vamo abrir os ouvidos, minha gente. Afinal, não existe só Luan Santana no mundo né?

Viu aí, Dona RuPaula? É sempre bom valorizar as participações especiais de algumas pessoas em nossos projetos de vida. Ganhando dinheiro ou não.

“Percebe, Michelle, a petulância da blogueira?”

 

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Esta publicação integra as postagens temáticas para o Mês das Mulheres no ano de 2017. Clicando aqui você pode ler sobre o trabalho de mais mulheres na música, na literatura, na TV, no cinema e em outros tipos de arte.
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