In Séries

13 Reasons Why e o caos de Hannah Baker

Caos: essa é uma palavra bem perigosa. No caos, vai por água abaixo toda a ordem definida pelas leis naturais do universo ou pela organização definida pelas leis humanas. Cosmo e caos se anulam. São antagônicos. O Cosmo uni as diferentes peças do tabuleiro e estabelece o arranjo de tudo: do átomo às galáxias. O Caos desestabiliza, quebra ligações, rasga o belo roteiro da vida escrita pela Divindade. É o Caos que aniquila, perturba, se espalha e cresce, exatamente como um buraco negro.

Os tópicos desse artigo são os seguintes:

>> Teoria do Caos
>> As razões
>> Fita 1 – lado A
>> O verdadeiro recado
>> No fim…

Vai ouvindo aqui e já já você entende direito:

Você, com a psique saudável, já esteve perto de uma pessoa com depressão? Aquele indivíduo se torna um pequeno centro de Caos. Ninguém está preparado pra lidar com a depressão, na própria vida ou na vida de quem sofre desse distúrbio. E é na falta de preparo que é permitido o crescimento desse Caos: sem a devida contenção, ele só se espalha, exatamente como um buraco negro.

Teoria do Caos

Tem muita gente sem noção que diz algo que parece ditado popular de tão repetido: “Depressão é a doença da moda”. Só diz isso quem se perde na santa ignorância e desconhece as causas e os efeitos dessa doença. Outro entalhe da complexidade psicológica que também anda “famoso” na boca das pessoas é a ansiedade, quando o Caos se estabelece na mente e nos impede de fazer qualquer coisa material ou imaterial dar certo.

Não se brinca com o caótico. É pra evita-lo que o Cosmo respira, expande e retrai, aliviando e aumentando a pressão pra que nada saia do lugar. Porque, se sai do canto, tudo muda. Instala-se a nova ordem natural do universo. Essa é a Teoria do Caos, explorada em Efeito Borboleta e, recentemente, na série da Globo, Justiça: é o bater de asas de uma tal borboleta em determinado ponto numa dada hora que ocasiona um tornado. Ou, mais realístico, é um ato corrupto do presidente de uma empresa de transporte público que desencadeia uma série de ocorrências.

Quando o caótico se instala por conta de fatalidades naturais ou bem sutis, a gente até deixa passar e simplesmente se acostuma com o novo contexto. Mas, e quando é em decorrência da ação direta de alguém? Nesse caso, Justiça e TH1RTEEN R3ASONS WHY (Os 13 Porquês) se aproximam e compartilham do mesmo Cosmo.

As razões

13 Reasons Why estreou na Netflix em 31 de março e vem causando um tremendo burburinho. Há bastante tempo eu deixei de confiar nos seriados da Netflix por conta de várias produções: Marco Polo, Demolidor, Knights of Sidonia e, recentemente, Desventuras em Série. Não vou citar os motivos de cada uma, simplesmente tenho os meus. 13 Reasons me deixou minimamente curioso, então incluí na minha lista, só pra ver qual era a dessa série baseada num livro bem estranho e com críticas medianas. (Pra quem endeusa Netflix, nem tudo é original nessa casa, tá? Aceita.)

A série, com produção de ninguém menos que Selena Gomez, relata o envolvimento de diversas pessoas com uma garota que, supostamente, suicidou-se. Digo “supostamente” porque, de início, somos ludibriados a acreditar que ela realmente cometeu esse ato. Do que conheço de ficção, muitos plot twists acontecem quando fulana foi assassinada com um suicídio forjado, ou seja, “suicidada”. E Hannah Baker é essa garota: em nenhum momento vemos o funeral dela, ou seu corpo sem vida, muito menos ela menciona como planeja a própria morte nas fitas cassete que deixou de lembrança.

“Oi, é a Hannah. Hannah Baker. É isso aí, não ajuste o seu… o que quer que esteja usando para ouvir isto. Sou eu, ao vivo e em estéreo. Sem promessa de retorno, sem bis e, desta vez, sem atender a pedidos. Pegue um lanche, acomode-se. Porque vou contar a história da minha vida. Mais especificamente, como minha vida acabou.”

Hannah fez 13 gravações em 7 fitas cassete contando, em cada uma delas, como certas pessoas, em situações e momentos específicos, corroboraram pra que ela viesse a suicidar. Sim, temos aqui mais uma “A”. Não pude deixar de lembrar de Pretty Little Liars, que também parte da premissa de recados de um suposto cadáver aos vivos de um grupinho seleto numa cidade pequena dos Estados Unidos, e ainda dentro de uma escola cheia de adolescentes.

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Vale mencionar que a premissa não é novidade: Desperate Housewives é narrada por Mary Alice: Mortinha da Silva. Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro de Machado de Assis, também traz a narração de um morto. E que tal puxar O Chamado pra listar aqui como referência? Acho bem justo, viu: adolescentes tendo suas vidas entrando no Caos depois de assistir a um filme amaldiçoado de uma garota morta. Bem familiar a adolescentes ouvindo fitas de uma suicida e ficando extremamente perturbados depois disso. Então, minha gente, não tem nada de novo nas terras da ficção, né? Moving on…

Dito isso, vale ressaltar e enfatizar que onde Pretty Little Liars errou na categoria Suspense Sem Enrolação, 13 Reasons vem acertando. E esse porque se deve ao fato de a narração ser toda muito bem escrita e desenvolvida em doses homeopáticas.

Temos aqui 2 protagonistas: Hannah Baker (Katherine Langford) e Clay Jensen (Dylan Minnette). Hannah está ali porque é a história dela. Mas, o que acaba sendo bem interessante, Clay é o personagem que conduz toda a narrativa. Já que Clay parece ser um dos grandes motivos para o suicídio de Hannah, nada mais justo que ele, no seu próprio tempo, escute as fitas e tenha conhecimento do que realmente houve.

Dessa forma, as críticas que ando vendo por essa condução narrativa de Clay quase em slow motion, percebo como sendo totalmente infundadas. Os episódios necessitam espaçar os acontecimentos e dar tempo para o espectador respirar e absorver tudo no seu tempo particular, mais rápido ou mais devagar que Clay Jensen.

Fita 1 – lado A

“Se você está ouvindo esta fita, você é um dos porquês. Não vou dizer que fita conta sua parte na história. Mas não tema. Se você recebeu essa adorável caixinha, seu nome vai aparecer. Prometo.”

Clay chega em casa e vê que recebeu uma caixa contendo um mapa e 7 fitas cassete. Na primeira, lado A, Hannah fala de Justin Foley. (SPOILER, OIE, TEJE DITO) Como o conheceu e como tudo se desenrolou. Como ela foi atrás dele e forçou interações e como ele correspondeu a isso. Como eles saíram a primeira vez e como aconteceu o primeiro beijo. E, também, como ele tirou uma foto da calcinha de Hannah e espalhou isso pela escola.

 

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Por causa de Justin Foley, ela foi julgada pelas pessoas, apontada, ouviu risinhos, piadas e comentários maldosos. Adolescentes (e até uns adultinhos da vida real) simplesmente adoram usar de deboche pra apontar detalhes que acham ser defeito em alguém. Você pode ser diferente, pode ter boas intenções, pode ser o caralho duma pessoa desconstruída. Mas o seu olhar torto, o seu olhar de julgamento, o seu jeito esquivo, a sua falta de consideração e empatia escassa pela pessoa com quem você não tem afinidade e nem sequer conhece, isso tudo vai gerar uma consequência.

É o Caos, meus amigos. E o caótico se apresenta, aqui, de forma bastante fiel à realidade. A vida de Hannah não foi a mesma desde esse momento. Ser taxada de puta pela escola não é exatamente um elogio. Não que ser puta seja algo ruim, mas, para as pessoas que dizem isso, é carregado de maldade e envolve um falso status de superioridade por quem o fala.

O verdadeiro recado

13 Reasons Why não é pra nos motivar a não ser um porquê. Desculpa, mas não é isso, não se iluda. Porque tanta coisa acontece ao nosso redor que não podemos simplesmente deixar de agir da maneira que faz nos sentirmos melhor, entre todas as incertezas cotidianas e as inseguranças internas. Não podemos negligenciar nossa própria saúde psíquica pra satisfazer o bem estar alheio.

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Essa não é uma série pra sair culpando os outros pela nossa própria infelicidade. Não é essa a mensagem de Hannah. O recado que ela passa tá muito mais pro lado de tentar ser alguém melhor quando convém, quando sabemos estar impactando na vida dos outros. E, quando não convém, basta que fiquemos atentos aos nossos atos e à recepção dessas ações pelas outras pessoas.

No fim…

3 oclinhos e meio pra esse episódio e um único porquê: não tem muita novidade por aqui e são muitos clichês envolvidos. Meio oclinho é pra importância de falarmos abertamente sobre o tema suicídio, insanidade que tantos sociólogos e jornalistas defendem para não ser feito…

***

Não vou perder a desconfiança de que Hannah tenha sido assassinada ou que tenha, simplesmente, fugido de casa e se escondido em algum canto depois de ter forjado a própria morte. Novela mexicana demais? Eu acho que não. Meu trabalho aqui é com evidências e verdades, e não suposições. Aos poucos, cada um vai assistindo aos episódios, ouvindo Hannah e (se a carapuça lhe serve) enroscando a fita no próprio pescoço.

Hannah Baker vai te puxar para o limbo. Exatamente como um buraco negro.

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