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1 mês de uso do Kindle + 5 reflexões sobre os leitores digitais

Depois de 1 mês de uso do Kindle, tive uma boa noção do funcionamento do aparelho e ainda bateu algumas reflexões sobre o mercado editorial na era digital.

Comprei meu Kindle. ALELUIA!

Foi em outubro que finalmente chegou o momento que eu tanto esperei. Há 5 anos eu nem considerava ter um leitor digital, só tinha uma leve curiosidade. Há 3, optei por ficar de olho. E no começo de 2017 decidi que ia passar os meses avaliando se valia a pena, buscando opiniões de amigos que tem e-readers e dando aquela economizada pra comprar o gadget com folga. Chegou aqui no dia 1º de novembro e, desde então, carrego ele pra cima e pra baixo!

Virou uma relação saudável, tanto que me deu muito pra pensar no consumo de literatura e, mais importante, na leitura do brasileiro. Acabou que me surgiram algumas verdades que são necessárias de entender e compartilhar:

Leitor digital e ebooks NÃO vão substituir livro físico

Durante esse tempo todo em que fiquei no limbo, considerando se comprava ou não, vi muita coisa sendo dita a respeito dos leitores digitais. Conversei com uma caralhada de gente sobre a experiência de leitura num gadget apropriado (Kobo, Lev e Kindle são os principais – e únicos – aqui no Brasil). E todos, independente da marca que usam, afirmam categoricamente que o e-reader agrega à leitura. São elementos que se somam e não se anulam. Mas também li uma matéria do Estadão que me deixou apenas atento.

#atenta

A matéria relembra a perspectiva apocalíptica de que a mídia física do livro iria sumir quando o e-reader ficasse popular. Sabemos que isso não aconteceu, mas a mesma previsão pessimista diz que é o e-reader que vai sumir. No mundo todo foram 131 milhões de aparelhos vendidos desde 2007. No Brasil, o número fica em 72,6 mil aparelhos vendidos desde 2010, com um pico em 2015 de 16 mil aparelhos, mas vem caindo desde então (dados: consultoria Euromonitor).

A venda de ebooks também não tem se mostrado muito significativa: 2,79 milhões de ebooks vendidos (1,09% no lucro das editoras) em 2016, contra 39,4 milhões de livros físicos (dados: Câmara Brasileira do Livro). Mas isso acontece por outros problemas: nenhuma editora das grandes leva o ebook como produto principal.

Editora quer vender livro físico

Tem editora que, estrategicamente, não tem interesse em comercializar livros digitais, como a DarkSide Books. E eles estão certos. A DarkSide nasceu com um extremo apelo visual e sensorial. Pra filosofia deles e para o público deles, faz a diferença tocar no livro, sentir a textura da capa, o peso do produto, a densidade das páginas e, claro, o trabalho em design editorial. Esse é o produto deles e não faz sentido espelhar esse tipo de projeto na tela de um aparelho.

E também tem editora que quer estar em todos os espaços e também estão certos nisso. É exposição de marca e é estratégia. Porém, não é o foco, porque sabem que são os livros físicos que mais garantem repercussão. É o objeto livro que algumas pessoas levam nos ônibus, mostram aos amigos no trabalho, nas aulas. É a coisa palpável que permanece na mesa e na estante e duram mais que um arquivo que pode ser deletado com 2 cliques (ou pelo menos essa a mentalidade que a maioria tem).

Com um produto que o público não entende 100%, que não existe fisicamente e que tem uma resistência de inserção no mercado, é complicado manter público consumidor. E as editoras entendem isso. Não é à toa que dedicam tanto trabalho na diagramação de livros físicos, em boxes de coleções, em comentaristas consagrados, em prefácios de críticos. Justamente porque, por mais contraditório que seja, o digital é bem restrito, e o físico consegue ser muito mais acessível.

Leitor digital não é acessível

Complementando o ponto anterior, a segmentação de mercado dos leitores digitais e dos ebooks é bem menor. Por mais que se diga que os ebooks da Kindle possam ser acessados de qualquer lugar, eles ainda dependem desse “lugar” pra serem lidos. E depende, bem mais além, do poder aquisitivo e da informação que a pessoa tem. No fim das contas, não é tão fácil e simples como pintam os youtubers literários, com o privilégio das suas estantes, seus livros, suas câmeras, seus celulares e seus computadores (me incluo nesse grupo de privilegiados, afinal, olha aqui o espaço que montei…)

Acessibilidade é um problema aqui, e é uma barreira quase intransponível. Ebook é um amontoado de bits num banco de dados. Está longe de fotos e mais distante ainda de acesso porque, enfim, depende de um aparelho pra ser usado, seja ele o próprio leitor digital ou ainda o computador ou o smartphone. Se o objeto livro é coisa de gente primordialmente de Classe C pra cima, o que é então um Kindle Paperwhite com conexão WiFi que custa R$ 479,00 (preço comum) quando a pessoa já tem computador e celular e ainda paga internet e telefone?

Às editoras, investir no digital é necessário pra atingir mais pessoas, mas são pessoas que já são leitoras. Ou seja: e-reader AINDA não forma leitor. Livro físico é caro, mas ter um e-reader pode ser mais caro ainda.

Leia também:

1 e-reader pra família toda

A tal matéria do Estadão dizia que a venda de e-readers vai continuar sofrendo queda até 2022 porque os índices de leitura também estão diminuindo. Acho (na verdade, tenho certeza) que desconsideraram o ciclo de vida do produto no mercado, e é normal e esperado (além de planejado) que as vendas diminuam durante o tempo.

Com a falta de estímulo à leitura no Brasil, com a consciência de que um único leitor digital pode servir a uma família inteira e a perspectiva de que um aparelho desses dure por décadas, é de se esperar que as vendas diminuam, sim! Nenhuma novidade nisso. E-reader é um aparelho e pode ser de uso coletivo do mesmo jeito que a televisão e o computador (não ao mesmo tempo, claro, organizando direitinho todo mundo lê). Assim como a Netflix, o Kindle, por exemplo, possui um controle do que pode ser acessado, ideal pra quem divide o gadget com crianças.

Várias edições? Basta 1 ebook

Tem também a questão do ebook atualizável. Sempre que a editora se dispor a atualizar a edição que você tem, a loja na qual o aparelho está conectado irá atualizar a versão do livro. Isso acontece com os dicionários e manuais de uso, mas também serve para qualquer livro de qualquer editora. Uma edição com erros de gramática, de diagramação, com atualização de dados pode chegar ao leitor sem necessidade de nova compra.

Isso é algo bem útil pra quem estuda muito de uma área que se atualiza com muita frequência. Converse com estudantes ou profissionais do Direito e pergunte quantas edições do Vade Mecum já viu surgir e ficar ultrapassada… Nenhum dos meus amigos dessa área se disponibiliza a sequer comprar o livro novo, imagina comprar mais de uma edição com diferenças de atualização!

Não vale muito comercialmente pras editoras, mas instiga o consumidor a ser fiel à marca, além de ser uma atenção necessária nessa era de convergência. Fora que cabe a nós, leitores, a consciência de que o livro físico impossibilita esse update e nos força a comprar um novo exemplar. Foi mal aí, editoras, mas sou nem obrigado! Ninguém precisa de mais de 1 edição do mesmo livro levando poeira na estante, né?

Veredito

Pensei em vir falar dos famigerados pontos fortes e fracos do aparelho. Mas, na boa, tem tanto conteúdo sobre isso dizendo a mesma coisa que não vale a pena insistir em falar mais do mesmo. Porque, sinceramente, ter um Kindle significa que nós, leitores que temos e-readers, somos privilegiados, temos uma sorte desgraçada e podemos ter uma experiência a mais na hora de ler. A gente só precisa ter mais consciência do que tudo isso significa no mercado editorial do Brasil.

Até agora li 2 livros completos nesse aparelho que criei um xodó danado! Fora esses 2, ainda tem alguns que fui intercalando leitura entre o físico e o digital. Meu rendimento de leitura praticamente dobrou. Consigo ler mais rápido, com menos dispersão e mais imersão. E o melhor: ainda consigo reter mais informação, fazer anotações com mais rapidez sem distrações e, no fim das contas, ler muito mais que o planejado.

É bom, mudou minha rotina de leitura, tá sendo incrível e foi um dos melhores investimentos que fiz na vida. Se você pode, se você quer e se você entende o impacto de você ter um, leitores digitais são sim pra você. Independente de marca.

Mas eu prefiro Kindle.

Tem que dar nota? Pois toma aí: nota máxima.

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5 Responses to 1 mês de uso do Kindle + 5 reflexões sobre os leitores digitais

  1. Oi, tudo bem?
    Eu já vi comentários de pessoas que dizem que agora conseguem ler mais livros no mesmo período de tempo. Que facilitou a vida deles. Mas eu continuo com meus livros físicos mesmo, prefiro eles embora o problema de falta de espaço seja algo negativo, se formos comparar. Ótimo sua matéria.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

  2. debyhsama disse:

    Olá,
    Não tenho nenhum e-reader, e sinceramente com exceção dos livros mega pesados, não sinto falta.
    Ler em tela cansa, mesmo que seja bem adaptado e tal, ainda prefiro o papel.

    Debyh
    Eu Insisto

  3. Leituras Diárias disse:

    Olá, tudo bem? Os pontos que você levantou são bem pertinentes. Eu sou uma leitora privilegiada pois tenho Kindle, porém ainda não me vi imersa neste mundo. Kindle é uma mão na roda para mim quando preciso de ler livros enormes, livros que não encontro em versão física, mas que enfrento ainda resistência entre o físico e ele. É questão de gosto, e de também refletir alguns pontos que você trouxe. Se algum leitor me perguntar se vale a pena? Vale, mas tem que pensar em o quanto você é adaptável a mudança, ou se está inserido nesse meio sem perceber. Comprei pela experiência, isso foi em Junho, e até hoje tenho somado dois livros lidos. Me adaptei? Pode se perceber que não, apesar de nunca ter subestimado seu poder de ajudar leitores a lerem mais. Gostei desta questão de falar sobre os e-readers sumir, o que considero uma besteira e a questão da acessibilidade deles, onde ainda temos uma maior quantidade de pessoal preferindo gastar 50 reais em um física, pelo seu apelativo, do que 300/400 reais em um e-reader. Ótima postagem!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

  4. Eu tenho meu Kindle tem uns 4 anos. Sei que sou uma privilegiada, pois além de ter o poder aquisitivo de comprar livros, ainda tenho um aparelho que não é nada barato. Bom, mas o fato é que hoje não me vejo sem meu Kindle. Leio muito mais livros graças a ele. Sempre achei que a função dos leitores digitais seria agregar. As previsões apocalipse de que mataria o livro físico sempre achei sem fundamento.

  5. Daniel Chervenski disse:

    Uai, mto interessante o post!! Eu nunca me aprofundei então imaginava que, assim como na música, o digital havia passado o físico e a venda de livros tivesse se igualado a de ebooks e similares… Sei de toda ganância dos grandes empresários mas confesso que fiquei feliz pois sempre preferi pagar mais caro num livro ou num CD e não comprar nada digital. Este ano ainda fui na feira do livro aqui de Porto Alegre e sai de lá com 8 livros em maos… Que sensação linda s2

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